
Ó Serdespanto
Vicente Franz Cecim
Em Andara,é quando os homens esperam um anoitecer mais calmo que vêm as noites da vida nos lançar pedras de sombras
e asas de areia
vêm nos açoitar.
Sendo assim em Andara: ó ser de espanto, ó ser despanto, ó serdespanto.Passando, pois, aquele homem a se chamar assim
Serdespanto.
Pois esse o nome que lhe deram quando ele nasceu, diz-se disso, a mãe, essa que denomina uma parte de si que sai de si aqui para fora, humanamente, para ser outro ser.
Um outro espanto isso, deve-se reconhecer com melancolias, resignações, suspiros. Isso de nascer
Em Andara, pois.
Mais um tendo vindo.
De rastros, humano.
Mas depois ele já não andava mais de rastros, esse Serdespanto.
Muito alto,
ou eram as nuvens que baixavam do céu para nele roçar,
o certo é que os seus olhos atravessavam névoas, nadas.
Uma neblina vaga sempre flutuando em torno de sua caixinha de osso, diz-se cabeça.
Posta essa neblinazinha entre os dois buracos, diz-se olhos, através dos quais veria a vida, e a coisa dissimulada lá fora.
- Maldita semi-noite, costumava dizer baixinho Serdespanto, tropeçando nas coisas duras que ela, a sonsa, sempre espalha à frente dos caminhos dos homens para nos despertar, com quedas, do sonho de estar vivo.
Assim, a região dos murmúriosnaquele homem ela se instalando. Se instalara.
- Ó Serdespanto.
Lamentasse sua mãe, da terra agora, o lhe ter aberto a portinha que as mulheres têm entre as pernas para nos fazer tombar aqui,
caídos da casinha escura que elas, úmida, trazem dentro de si
Pois depois que ele chegara ela se fora
Aquele túmulo sendo uma outra casinha de terra onde a mãe agora habitasse em silêncio.